Você sabe qual a maior palavra do grego antigo? Ela aparece no final da comédia A Assembleia das Mulheres de Aristófanes, datada entre 392 e 391 a.C. Esta é uma peça profundamente interessante: as mulheres de Atenas, cansadas de verem a cidade sem rumo em razão da administração por maus governantes (homens), resolvem, sob a liderança de Praxágora, travestirem-se de homens e irem para a Assembleia deliberativa da cidade. Na Assembleia, elas fazem uma proposição inusitada: doravante, o governo da cidade deveria ser cedido às mulheres.

Esta é uma típica estrutura das comédias de Aristófanes: no início, há algum problema na cidade ou no coletivo, em seguida uma personagem (ou grupo de personagens) elabora uma Grande Ideia que resolverá o problema. Esta Ideia, não poucas vezes utópica ou absurda, é desenvolvida no restante do drama encontrando, muitas vezes, algum oponente.

Pois bem, a Grande Ideia de A Assembleia das Mulheres é similar a outra peça de Aristófanes, Lisístrata, datada de 411 a.C. Nesta última peça, as mulheres, também, assumem o comando da cidade. A diferença, contudo, reside no fato de que, no drama mais antigo, as mulheres tomam a Acrópole, enquanto seu poder na cidade é vislumbrado como temporário, pois o objetivo central da conspiração de mulheres em Lisístrata é meramente cessar a guerra e restaurar a paz. Tão logo esta Grande Ideia seja cumprida, a administração da cidade, ao que parece, voltaria a sua funcionalidade normal nas mãos masculinas.

Ora, A Assembleia das Mulheres é um constructo utópico fascinante precisamente porque a Grande Ideia desta comédia é um novo quadro de governantes que, aparentemente, veio para ficar. E as mulheres tornam-se governantes não por um assalto à Acrópole, mas pelo próprio voto majoritário da Assembleia de cidadãos que, estimulada por mulheres disfarçadas de homens, aceitam a ideia de um poder feminino: afinal, pensam, já tentamos de tudo para salvar a cidade, por que não mais esta tentativa? Se elas cuidam bem do lar por que não haveriam de tratar bem os assuntos da cidade?

No final das peças aristofânicas, não é incomum encontrar uma procissão ou festa que assinala o triunfo da Grande Ideia e dos heróis cômicos vinculados a ela. Assim acontece em A Assembleia das Mulheres: há um jantar muito volumoso e farto que as mulheres oferecem a todos os habitantes da pólis, como uma espécie de demonstração da generosidade do novo regime político e, também, como uma manifestação do programa revolucionário das mulheres, que propõe um modo de vida comum e igual para todos (as).

É na descrição de quais são as comidas oferecidas nesse jantar (peixes, aves, entre outras coisas) que se encontra a maior palavra alguma vez já escrita em grego antigo:

λοπαδοτεμαχοσελαχογαλεοκρανιολειψανοδριμυποτριμματοσιλφιοιπαρομελιτοκατακεχυμενοκιχλεπικοσσυφοφαττοπεριστεραλεκτρυονοπτοπιφαλλιδοκιγκλοπελειολαγῳοσιραιοβαφητραγανοπτερυγών.

Em caracteres latinos:

Lopadotemakhoselakhogaleokranioleipsanodrimhypotrimmatosilphiokarabomelitokatakekhymenokikhlepikossyphophattoperisteralektryonoptokephalliokigklopeleiolagoiosiraiobaphetraganopterýgon.

São, em grego, pela contagem feita por Alan Sommerstein, 170 letras e 79 sílabas, ocupando os versos 1069 a 1075 da nossa edição da peça. Insano, não?

Claro que uma palavra assim é artificial: Aristófanes aproveita uma característica do grego, a grande liberdade de aglutinar palavras, prefixos e sufixos na formação de uma nova palavra. E como teria sido ouvir esta mega palavra no teatro? No vídeo abaixo há uma leitura da palavra e, como não pode deixar de ser, o narrador precisa ter um grande fôlego para ler todas estas sílabas como se fosse uma mesma palavra!

Em Assembleia das Mulheres, Aristófanes imaginou um novo governo, uma nova sociedade e uma nova palavra, como se para exprimir o teor revolucionário de um governo de mulheres a língua grega precisasse levar ao absurdo a sua permissividade em unir palavras. Um governo de mulheres, contudo, não se faria apenas juntando os elementos já existentes, como sílabas que se adicionam, mas seria necessária uma grande reflexão sobre formas alternativas de gerir a vida social e política, que seria, aliás, realizada apenas algumas décadas mais tarde por Platão em a República e continua, ainda hoje, com as lutas feministas em prol de uma sociedade que permita o livre desenvolvimento de todas as mulheres.


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

3 comentários

Félix Jácome · 15 de junho de 2018 às 14:15

Sim, Natália, há um debate muito interessante sobre a possível influência desta peça de Aristófanes sobre o projeto do livro quinto da República de Platão, que confere capacidade administrativa e política às mulheres. Em português, Ana Maria C. Pompeu, da Universidade do Ceará, e Maria de Fátima Silva, da Universidade de Coimbra, têm, por exemplo, explorado este tipo de comparação entre Aristófanes e Platão no que concerne ao papel das mulheres numa sociedade diferente da existente. Vale a pena ler, sobretudo, A Assembleia das Mulheres, é uma comédia muito prazerosa de se ler e muito informativa acerca das percepções de gênero na Grécia Antiga.

    Na · 15 de junho de 2018 às 16:13

    Muito boas indicações de autoras que trabalham esse tema! Me pareceu mesmo que Platão foi influenciado por essa comédia para postular a igualdade entre homens e mulheres no que toca à vida pública na cidade, ou seja, na política. Achei incrível ler isso em Platão e mais incrível ainda ver isso em Aristófanes. Quanto à palavra, chega até a ser engraçada de ouvir!!

Natália de Medeiros Costa · 14 de junho de 2018 às 12:55

Ia justamente comentar sobre esse aspecto do texto platônico que postula a igualdade entre homens e mulheres no que toca à administração da cidade. Um gênio, de fato, e podemos perceber essa genialidade nessas minúcias de seu texto mais importante, quiçá. E fiquei com uma grande vontade de conhecer mais sobre a Assembleia das Mulheres e sobre o próprio autor, Aristófanes.

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