Na Odisseia atribuída a Homero, quando Odisseu partiu para a guerra de Troia, seu filho, Telêmaco, era apenas um bebê. Vinte anos depois, Odisseu está de regresso à Ítaca, mas, por astúcia da deusa Atena, ele entra na sua terra natal disfarçado de mendigo para não chamar atenção dos ultrajantes pretendentes que desejavam conquistar Penélope, sua esposa, e o seu reino.

Quando Odisseu está a instantes de revelar a sua verdadeira identidade para Telêmaco, cena narrada no Canto 16 da Odisseia, a deusa Atena julga que o reconhecimento será mais efetivo com um toque de mágica: a deusa aparece diante de Odisseu e devolve-lhe o aspecto físico original.

O poeta da Odisseia narra desta maneira a transformação física de Odisseu por obra divina: “Ela coloca-lhe, de início, uma manta bem lavada e uma túnica em torno do seu peito. Ela reforça a sua altura e juventude e repõe a sua pele negra, embelezando suas bochechas e enquadrando uma bela barba escura no seu queixo”.

Quando Telêmaco vê este Odisseu regenerado, pensa que se trata de um deus tamanha a beleza do seu aspecto físico! Ele comenta, especificamente, as novas roupas de Odisseu e a cor da sua pele, diferentes daquelas do Odisseu-mendigo que o jovem conhecera momentos antes.

A palavra do texto original para a “pele negra” é μελάγχροος (melanchroos), um adjetivo composto de melan- que significa negro (veja a nossa palavra melanina formada do mesmo radical) e chroos que significa cor. Odisseu possui, pelo que sugere a palavra neste verso 175 do Canto 16 da Odisseia, uma pele escura. Heródoto, nas suas Histórias, usa este mesmo adjetivo para falar da cor da pele dos Colcos, um povo, segundo ele, de origem egípcia.

Odisseu possui, também, a barba escura, como nos fala a citação acima. A barba é qualificada como κύανος (kúanos), uma outra maneira pela qual os antigos gregos exprimiam as cores escuras. Significativamente, esta mesma palavra é usada pelo poeta Hesíodo, um quase contemporâneo de Homero, para descrever a pele dos habitantes da África na obra Trabalhos e Dias (verso 527).

Pois bem, sabendo que, ao que aparenta pelo texto de Homero, o principal herói da Odisseia tem pele escura, o que falar da recente série Troia da Netflix/BBC, que retrata o herói como branco e louro, através do ator Joseph Mawle? É de uma falta de precisão literária e histórica tremenda! Afinal de contas, trata-se de uma figura central da saga da Guerra de Troia, arquiteto do cavalo de madeira que finalmente destruiu os troianos.

Uma produção que vira às costas a Homero merece credibilidade e ser assistida? Mudar o mito e adaptá-lo para o cinema tudo bem, mas precisa alterar a cor da pele de Odisseu? Se Telêmaco, em lugar de ver o pai pessoalmente, assistisse a Troia da Netflix, não reconheceria o próprio pai! Absurdo!

Essas últimas palavras são só uma brincadeira: não penso que a cor da pele dos atores ou atrizes seja algo de grande relevância para análise de um filme enquanto obra de arte. Ao menos, não tão importante quanto a atuação dos atores e atrizes, o figurino, a trilha sonora, o processo de adaptação do texto literário para a linguagem cinematográfica, etc.

A provocação feita neste texto deveria alertar-nos, contudo, para a nossa pobreza histórica e intelectual de desmerecer esta versão da saga de Troia pelo simples fato de que, na série, Aquiles e Zeus são encarnados por atores negros. Começando por Zeus, alguém aí já o viu para saber que ele seria louro dos olhos azuis? Sobre Aquiles, é verdade que o poeta da Ilíada chama-o de cabelos louros (ou dourados, depende da tradução), é verdade também que um ator com esta cor de cabelo poderia ser mais fiel ao que está no texto. A pergunta, todavia, é a seguinte: por que muitas pessoas estão criticando o filme por não ser fiel a um Aquiles louro e praticamente ninguém está reclamando do fato de que Odisseu é revivido por um ator branco?

O mundo grego era muito mais colorido do que as pálidas estátuas brancas que nos chegaram nos fazem crer (as estátuas que vemos hoje tinham cores, acontece que, quase sempre, as cores não resistiram ao passar do tempo).


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

1 comentário

Mozart · 12 de maio de 2018 às 12:05

Obrigado pelos esclarecimentos, meu amigo.

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