A partir de qual contexto histórico e poético emergiram as duas épicas que, convencionalmente, atribuímos a um poeta chamado Homero?

Um dos traços mais interessantes da Ilíada, de alguma maneira já notado na Poética de Aristóteles, consiste no fato de que o seu plano de ação é centrado em um tema específico, a ira de Aquiles e sua consequência danosa para gregos e troianos, e em um momento temporal conciso, um período de aproximadamente 51 dias no último ano da guerra entre gregos e troianos.

Não obstante este foco, a Ilíada menciona, como qualquer leitor pode perceber, várias informações mitológicas que cobrem quase que a totalidade da saga da Guerra de Troia, do Julgamento de Páris à morte de Aquiles, passando, naturalmente, pela queda de Troia.

Na aula de sábado, aprofundaremos esta dupla característica da Ilíada, concisão e expansão (ou concentração e englobamento, como prefere Joachim Latacz), pois ela permite adentrar no âmago do ambiente poético a partir do qual a poesia oral de Homero tomou forma.

A escolha específica do tema da Ilíada por parte do seu poeta, a ira de Aquiles, precisava ser inserida dentro da vasta rede de poesia épica oral que já existia na Grécia no momento de composição da Ilíada, séculos VIII-VII a.C. Esta foi uma maneira, primeiro, do poeta da Ilíada inserir-se dentro da tradição da poesia oral, segundo, de chamar atenção do ouvinte (ou leitor, vide Questão Homérica…) sobre como a sua “inovação” do tema da ira de Aquiles iria ser conjugada com as outras épicas existentes.

Por falar em outras épicas, mostraremos, nesta primeira aula, que a Ilíada e a Odisseia, apesar da importância e tamanhos monumentais, não estavam sozinhas no palco das poesias épicas. O conhecimento do chamado Ciclo Épico, um conjunto de textos que não sobreviveu mas que temos certo conhecimento graças a menções de autores antigos, revela parte do ambiente poético e mitológico que existia anteriormente a Homero e com o qual nosso poeta dialoga intimamente.

Um dos avanços mais promissores dos estudos homéricos nas últimas décadas tem sido, justamente, a identificação destas afinidades entre a Ilíada e, em menor grau, a Odisseia, e estes outros poemas do Ciclo épico. Há uma nova luz sobre a gênese dos poemas homéricos, com hipóteses muito interessantes.


Categorias: Homero

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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