O mito de Dafne e Apolo, apesar de originado na cultura grega, tornou-se célebre pelas mãos de Ovídio, em suas As Metamorfoses. Dafne, uma ninfa devota da deusa Ártemis, recusa contrair matrimônio. O deus Apolo, contudo, apaixona-se pela jovem. Como, para os deuses, desejar é possuir, Apolo engaja-se numa perseguição para alcançar Dafne, que recusa a aproximação física do deus. Diante da situação, a jovem clama por ajuda ao seu pai, o deus-rio Peneu (ou a Zeus, consoante outras versões). Peneu transforma-a em uma árvore de louros.

Consoante Timothy Gantz (Early Greek Myth vol 1, p. 90-1), as representações visuais deste motivo da transformação em árvore de Dafne apenas ocorrem no período romano, ainda que existam vasos gregos do século V a.C. que mostrem Apolo perseguindo mulheres não identificáveis. Uma dessas manifestações romanas está presente em um mosaico da antiga cidade de Pafos, na ilha de Chipre, datado do século III d.C. Como se pode ver pela imagem do mosaico logo abaixo, a cena mostra o fim da perseguição e o início da transformação de Dafne: Apolo, à direita de quem vê a imagem, está com o corpo inclinado, indicando um movimento em direção à Dafne, bem como está com o dedo apontado para a jovem. A figura deitada é o pai de Dafne, que está com o rosto virado para não ver a cena que se desenrola, podemos supor.

Quando Dafne, esgotada de tanto escapar de Apolo, suplica ao seu pai por ajuda, ela pede para que ele, segundo o relato de Ovídio, “destrua a beleza que me faz ser demasiadamente sedutora”. Uma árvore, certamente, teria o efeito de parar a libido de Apolo a custo, claro, da transformação (negação?) do corpo feminino da virgem.

O amor estéril que Apolo nutre por Dafne, como Ovídio escreve no verso 496 do primeiro livro de As Metamorforses, será lembrado, no entanto, como um ato de vitória e conquista, graças à simbologia de Dafne enquanto uma árvore de louros: a coroa de louros (ou láurea) torna-se, com efeito, um símbolo de Apolo, sendo concebida pelos romanos como sinal de vitória, uma vez que se cobrir de louros significava vencer. O nome da árvore, aliás, concretizou-se em nomes próprios: o nome Dafne, em grego, remete precisamente a esta árvore, ao passo que Laura é o seu equivalente em Latim e em português.

Laura, assim, resplandece vitória, mas que tipo de vitória? A cultura greco-romana possui vários exemplos, presentes nas suas manifestações artísticas, de relatos míticos nos quais uma figura masculina, geralmente um deus, persegue ou força uma relação amorosa ou sexual com uma figura feminina. 

A arte ocidental, em certas ocasiões, mostrou interesse por esta espécie de “amor” estéril. Gian Lorenzo Bernini, escultor italiano (1598-1680), esculpiu uma belíssima cena de Apolo e Dafne que, como no mosaico de Chipre, dramatiza o momento final da corrida de Apolo. Ainda mais do que no exemplar da Antiguidade, nesta obra barroca a vitória de Apolo, ao tocar a jovem, coincide exatamente com a transformação do corpo de Dafne em árvore. Note a delicadeza do corpo da jovem quando contrastado com o tronco que assume o lugar do seu corpo. Perceba, também, o semblante de desespero de Dafne, que possui a boca aberta, como se gritasse ou pedisse ajuda.

Se herdamos o sentido dos louros como sucesso e conquista, a sua história guarda o grito das mulheres sujeitas a estes “amores” estéreis. O que você pensa sobre as imagens das relações de gênero emanadas neste mito e nestas obras mencionadas? A transformação de Dafne em árvore representa uma resistência aos avanços sexuais não consentidos ou uma submissão a uma lógica que nega ou instrumentaliza o corpo feminino?


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: