A escrita da História do Egito Antigo foi marcada, durante muito tempo, por dois focos que monopolizavam as atenções: o mundo dos faraós, com suas riquezas e listas de feitos reais que ditavam o ritmo da narrativa sobre os egípcios, a cultura da religião “esotérica”, que mumificava os mortos e construía misteriosas tumbas e monumentos para abrigar a família real.
Recentemente, contudo, outras abordagens ganharam terreno, questionando estas imagens do Egito antigo.

O desenvolvimento da História Social e Econômica do Egito tem contribuído para esta mudança. Em primeiro lugar, por mudar o foco de interesse em relação às fontes: os (as) historiadores (as) e arqueólogos (as) preocupam-se, agora, não apenas com templos, pirâmides e tumbas, mas com, por exemplo, uma pequena região rural em pleno Saara denominada de Kargha (cujo nome moderno é Ayn Manawir), a 200 quilômetros do vale do Nilo, cujas informações arqueológicas permitem ver a organização da vida agrícola diária neste tipo de área de oásis. Ou, então, os (as) estudiosos (as) passam a ter mais interesse na organização da vida cotidiana de uma vila de trabalhadores, como é o caso das escavações que ocorrem em Deir el-Medina.

Esta vila fornece uma documentação excepcional sobre a vida cotidiana dos egípcios não pertencentes ao círculo real. Ela abrigava os trabalhadores encarregados de construir as famosas tumbas e templos funerários dos faraós e seus familiares durante o Reino Novo (aproximadamente 1549-1069 a.C.). Estes trabalhadores-artistas faziam dois serviços essenciais: cavar e modelar o terreno das tumbas, decorá-las com pinturas e esculturas.

Pelas fontes materiais advindas de Deir el-Medina é, possível, por exemplo, compreender a arquitetura das casas, relativamente bem preservadas, e os deuses que eram cultuados neste local. Além disso, há fontes interessantíssimas que nos contam acerca da condição de trabalho desses artesãos. Uma delas exprime a voz queixosa destes trabalhadores ao Vizir do Alto Egito (uma espécie de “primeiro-ministro” do faraó, encarregado de lidar com tarefas administrativas da parte sul do Reino): “Que o Senhor entenda que os trabalhadores da necrópole estão na degradação mais extrema. As pedras não são ligeiras a carregar! (…) Possa o Senhor agir de forma que os víveres sejam assegurados, pois nós estamos a ponto de morrer”.

Não é por acaso que serão estes mesmos trabalhadores de Deir el-Medina que protagonizarão uma das greves mais antigas que temos registro: a greve ocorrida por volta de 1160 a.C. que os fez parar, por um tempo, de construir os monumentos reais (mas isso é assunto para uma outra postagem…).

É curioso notar, por fim, a entrada tardia da História Social e Econômica nos estudos sobre o Egito Antigo, como nota um dos egiptólogos mais ativos hoje em dia, Juan Carlos Moreno García, que acaba de lançar, aliás, um manual em francês sobre o Egito, que busca, justamente, consolidar estas novas abordagens dentro de uma narrativa de conjunto da terra dos faraós (quer dizer…da terra dos (as) trabalhadores (as) de Deir el-Medina).


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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