As nove razões prometidas no título dão nome aos noves capítulos que compõem o livro. O de abertura é uma interpretação levemente hiperbólica da noção de aspecto verbal grego em contraposição à ideia de tempo verbal das línguas românicas modernas por meio da qual a autora chega à conclusão de que os Gregos antigos eram mais livres, pois não se perguntavam quando as coisas aconteciam e sim como elas se manifestavam. De fato, o aspecto grego é um tesouro linguístico muitas vezes tratorado nos cursos, simplesmente por não haver tempo de discuti-lo com profundidade, mas a autora comete o erro de exagerar tanto esta premissa que parece que os Gregos eram alheios a um conceito de tempo verbal cronológico, o que sabemos não ser verdade. Aristóteles, por exemplo, no vigésimo parágrafo da Poética, discordaria da autora já que define o verbo grego como uma unidade semântica que traz informação sobre quando (μετὰ χρόνου) algo acontece. 

Em seguida temos capítulos com visões bastante interessantes sobre aspectos da gramática grega, como por exemplo “Os casos, ou uma ordenada anarquia das palavras”, “O silêncio do grego. Sons, acentos e espíritos” e o poético “Um modo chamado desejo. O optativo”. O capítulo que trata do ato de traduzir é valioso por revelar as experiências de sala de aula e da vida de Andrea, mas o último capítulo, “Nós e o grego, uma história”, acaba por reforçar a visão demasiada ufanista da autora que aparece pulverizada por todo o livro.

Apesar de pecar em muitos momentos pelo excesso de elogios de uma língua e de uma cultura que já são reconhecidamente importantes para a civilização moderna, a autora consegue transmitir sua paixão sincera pela Grécia Clássica (apesar de demonstrar um pouco de desprezo pela Grécia imperial de Alexandre e o que vem depois) e, por este motivo, o livro merece ser lido. Não se trata de uma obra de especialista, mas sim um livro em que amantes da língua grega encontrarão anedotas e situações do dia-a-dia vivamente contadas. Além disso, a autora repassa vários pontos basilares da gramática grega com uma leveza ímpar, o que pode ser proveitoso para quem já deu os primeiros passos no estudo do Grego e gostaria de revisar suas anotações. Tenho certeza de que também para aqueles que estão entrando agora nesta grande jornada, que é aprender o Grego, este livro pode se revelar um excelente começo.

Andrea Marcolongo. La lingua geniale: 9 ragioni per amare il greco. Tradução em português continental: A língua dos deuses: 9 razões para amar o grego. Editora Gradiva. 2018. Tradução: Ana Maria Pereirinha.

 

Categorias: Língua Grega

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