“Nós não poderíamos viver ao lado das vossas mulheres. Disparamos nossos arcos, arremessamos dardos e montamos a cavalo. Não aprendemos nada dos trabalhos de mulheres. As vossas mulheres não fazem nada do que enumeramos, antes fazem atividades próprias de mulheres. Não caçam nem vão a nenhum outro lado. Desse modo, não suportaríamos este convívio”.
 
Essas são as palavras que Heródoto atribui as Amazonas, as famosas mulheres guerreiras que povoaram a imaginação dos gregos antigos. Elas dirigem-se aos homens sauromatas, uma cultura parente dos povos Citas que possivelmente viveu próximo ao mar Cáspio. Conta a versão de Heródoto, presente no livro IV das suas Histórias, que os homens deste povo, num primeiro momento, confundiram as Amazonas com jovens guerreiros e, só num segundo momento, perceberam que se tratavam de mulheres. Uma história sobre um exército composto apenas por mulheres, além do temor que poderia gerar na audiência grega, também levaria a especulações sobre como elas poderiam procriar e, com isso, estaria sempre presente, em tensão, o elemento do contato sexual entre elas e os homens. A versão herodoteana segue, precisamente, este itinerário: quando os sauromatas dão conta de que estão lidando com mulheres, surge a ideia entre eles de pôr em contato os seus jovens homens com as Amazonas com o objetivo de terem descendências destas mulheres tão excêntricas.
 
Neste relato, as Amazonas acabam por aceitar consensualmente a relação sexual com estes homens. Eles propõem, além disso, tomar como esposas as Amazonas e viverem com elas na sua região, o que gera preocupação entre as mulheres guerreiras, como está explícito na passagem de Heródoto que abre este texto. Elas replicam aos seus pretendentes que não se adaptariam a viver com eles, pois possuem um estilo de vida muito distinto das mulheres que vivem nesta região. Apesar destas mulheres sauromatas não serem gregas, a contraposição entre as atividades ao ar livre e bélicas das Amazonas e a vida reclusa destas mulheres faz pensar que, por trás desta anedota, há uma reflexão sobre o contraste do modo de vida das Amazonas e o comportamento pretensamente ideal da mulher na família grega, ocupada somente com atividades do lar.
 
O mito das Amazonas, uma sociedade de mulheres voltadas para a guerra, que viviam nos limites do mundo conhecido, famosas por suas habilidades enquanto arqueiras, possui um significado especial para o entendimento da imaginação dos gregos antigos acerca dos papeis de gênero na sociedade. Como sustenta Mary Lefkowitz (Women in Greek Myth, 1986, p. 27), uma das mensagens da lenda consiste na afirmação que qualquer uma que se retirar ou ameaçar a vida familiar normal torna-se perigosa para a sociedade como um todo.
 
Há muitas outras manifestações do mito das Amazonas na Grécia Antiga e nos dias de hoje, como exemplifica o recente filme sobre a Mulher-Maravilha. O que pode o tratamento contemporâneo desta história neste filme, por exemplo, revelar sobre as nossas concepções do masculino e feminino?
 
(Na imagem, a mais antiga manifestação visual conhecida do mito das Amazonas: um escudo fragmentado datado aproximadamente 700 a.C., hoje no Museu Nafplion na Grécia. As duas figuras centrais que duelam, uma é masculina, à esquerda do espectador, que ameaça a figura da direita, quem tem sido interpretada como uma amazona. Nota-se que é uma mulher pela roupa e pelos círculos desenhados que indicam os seios).
escudo amazonas MUSEU NAUPLIA

 


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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