‘’Quanto tempo, Catilina, seguirás abusando de nossa paciência? Por quanto tempo fará sua loucura gozar de nós?’’ Com essas palavras, Cícero abre o que seriam seus discursos mais famosos: as Catilinárias, fama essa reavivada quando uma das operações da Lava-Jato foi intitulada com esse nome. Mas, afinal, quem foi Cícero e o que foram as Catilinárias? 

Cícero foi um político ímpar: nascido em Arpino, cidade próxima à Roma, no ano de 106 a.C., construiu sua carreira política toda na República Romana, uma vez que boa parte da Península Itálica conquistou a cidadania romana depois das Guerras Sociais (91 a 87 a.C.). Na República, Cícero ocupou os cargos mais importantes, sendo um exemplo do cursus honorum – questor em 75 a.C., edil em 69 a.C., pretor em 66 a.C. e cônsul em 63 a.C. Como cônsul, Cícero enfrentou o que seria seu maior desafio, a saber, a Conjuração de Catilina, aristocrata romano que organizou uma conspiração para usurpar o poder supremo da República e tornar-se cônsul. 

Uma vez revelada a intenção de Catilina de assassinar Cícero e incendiar a cidade de Roma a fim de causar caos e se instalar no consulado, Cícero proferiu ao Senado Romano a Primeira Catilinária no dia 8 de novembro de 63 a.C., com Catilina presente na reunião senatorial. Nesse discurso, Cícero atacou Catilina, acusando-o de liderar a conjuração contra a República, bem como informou o Senado do grave perigo que corriam as instituições republicanas. O cônsul, então, disse a Catilina que a melhor atitude que poderia tomar era partir para o exílio. O líder da conjuração, depois da reunião senatorial, rumou ao acampamento de seu aliado Mânlio, na Etrúria, a fim de dar continuidade à conjuração.

Como o próprio Catilina havia espalhado, antes de partir, o boato que rumaria ao exílio voluntário em Marselha, Cícero se viu forçado a esclarecer os fatos e tranquilizar a todos. Para tanto, convocou o povo romano no dia 9 de novembro e proferiu sua Segunda Catilinária. O cônsul, entretanto, permaneceu vigilante, aguardando o surgimento de provas definitivas que incriminassem Catilina e os conjuradores. Enquanto isso, a crença geral era que, com Catilina fora da cidade, a conspiração havia chegado ao fim. Contudo, os embaixadores dos alóbroges (povo gaulês), que se encontravam em Roma para queixarem-se dos desmandos dos governadores romanos, expuseram ao cônsul a tentativa de alguns conspiradores de cooptar o auxílio desse povo para o movimento. Cícero convocou, na tarde de 3 de dezembro, o Povo e o Senado Romano e revelou as descobertas na Terceira Catilinária. Os conjurados foram convocados e levados ao Templo da Concórdia, onde, depois de uma acalorada discussão, foram condenados à pena capital. Nesse mesmo dia, 5 de dezembro, Cícero discursou a Quarta Catilinária, para explicar ao povo as descobertas bem como as penas aplicadas. Catilina, ao saber da execução dos conjurados e da marcha do exército consular rumo a seu acampamento, não teve outra alternativa senão lutar: em princípio de 62 a.C., no Piceno, Catilina enfrentou o exército do cônsul Caio Antônio e foi morto em batalha. 

Encerrava-se, assim, a Conjuração de Catilina, mas não livrava a República das futuras turbulências que levaram ao fim desse momento histórico e ao surgimento do Principado. Ademais, as Catilinárias chegaram até nós graças à reescrita desses discursos por parte do próprio Cícero, feita por volta do ano de 60 a.C. e tiveram um papel importante para nossa compreensão do final da República Romana.

Referências para futuros estudos ou leituras:

  1. Traduções das Catilinárias de Cícero:

          Cicero, M.T. (2001). In Catilinam I-IV; Pro Murena; Pro Sulla; Pro Flacco. Cambridge MA: Loeb Classical Library (Inglês)

             Cícero, M.T. (2006). As Catilinárias. São Paulo: Martin Claret (Português).

  1. Textos sobre Cícero e sobre as Catilinárias

            Cowell, F.R. (1967). Cícero e a República Romana. Lisboa: Editora Ulisseia Limitada.

          Hardy, E.G. (1917). The Catilinarian Conspiracy in its Context: A Re-Study of the Evidence. The Jounal of Roman Studies (Cambridge), v.7, pp.153-228.

       Fortes, Fábio da Silva (2010). As Catilinárias de Cícero: Uma Análise Discursiva. Alétheia: Revista de Estudos sobre Antiguidade e Medievo, vol.1 (janeiro a julho de 2010). 


Natália Medeiros Costa

Apaixonada por História Antiga. Graduada em História pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e Mestre em História pela Universidade Federal do Paraná (CAPES 5). Dedica-se à História Antiga, com foco na História Romana no Período Republicano.

1 comentário

José Guimarães e Silva · 4 de junho de 2019 às 16:52

Muito bom ler esse texto e aprender mais sobre as catilinárias de Cícero.

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