Em 24 de março de 1968, o canal público de televisão da Itália, RAI, transmitia, em preto e branco, o primeiro episódio de uma série com oito partes dedicada a filmar a Odisseia de Homero. Diferentemente de outras produções italianas da década de cinquenta e sessenta, que rodavam os filmes inteiramente em estúdios, a série da RAI, dirigida por Franco Rossi, filmou parte dos seus episódios em um cenário externo, a bela costa do mar Adriático próxima à ex-Iugoslávia.

 

O cenário exuberante e impressionante para uma audiência original que ainda estava se acostumando com a popularidade dos aparelhos televisivos não foi o único indício de superprodução. A produção do filme contou com a presença, além da Itália e ex-Iugoslávia, da Alemanha Oriental e da França. O internacionalismo da obra pode ver-se, ainda, no elenco: o então desconhecido ator principal (Bekim Fehmiu), que fez o papel de Odisseu, veio da ex-Iugoslávia, ao passo que a já famosa atriz grega Irene Papas desempenhou Penélope, enquanto a jovem norte-americana Barbara Bach estrelou Nausicaa e a francesa Juliette Maynel figurou como a bela e enigmática Circe. O sucesso estrondoso desta série pode ser sentido pela média de 16 milhões de pessoas que se estima terem assistido cada episódio, dentro de uma população de aproximadamente 53 milhões de italianos em 1968!

 

Podemos destacar quatro elementos presentes na Odisseia da RAI que a singulariza perante as outras versões cinematográficas desta épica homérica, especialmente Ulises (Mario Camerini, 1954) e The Odyssey (Andrey Konchalovskiy, 1997).

 

Primeiro, a valorização de cenas da vida cotidiana do mundo homérico, fato possível graças a uma menor preocupação do diretor com as cenas pitorescas e espetaculares e uma maior atenção ao diálogo, relativizando a importância das cenas de ação e de aventura no filme. Assim, por exemplo, podem ser citadas as cenas do aposento de Penélope, no qual esta realiza seu trabalho de tear, o sacrifício oferecido por Nestor e os homens de Pilos ao deus Posídon e, ainda, a bela cena do encontro entre Penélope e Odisseu disfarçado de mendigo.

 

Segundo elemento, a existência de um narrador em off (voz extra-diegética) que recita versos inteiros da Odisseia; terceiro, a presença de epítetos, por exemplo,  “Atena, a deusa de olhos azuis”; quarto, a existência de símiles quando, por exemplo, o filme mostra Odisseu na jangada sob tempestade e o narrador em off reproduz o símile do narrador homérico presente no Canto 5, versos 328-330 da Odisseia: “Tal como no outono o Bóreas arrasta cardos e acantos / pela planície e ao rolarem se juntam uns aos outros – / assim os ventos arrastavam a jangada pelo mar em várias direções.” (Tradução portuguesa de Frederico Lourenço). Estas características permitem ao espectador, experienciar, de algum modo, a sensação de oralidade que caracterizava a obra literária original.

 

O acesso a esta série não é fácil, pois ela circulou pouco fora da Itália, o que explica que ainda seja relativamente desconhecida do público apreciador de literatura grega e/ou de Cinema. Com a popularização dos vídeos via internet, contudo, esta é uma limitação que está a se desfazer. O filme de Franco Rossi é a “adaptação da Odisseia mais bem realizada que já foi posta em tela”, como confessa um dos grandes estudiosos da recepção do mundo grego no Cinema, Martin Winkler (“Greek Myth on the Screen”. In: WOODARD, Roger D (org). The Cambridge Companion to Greek Mythology. Cambridge: Cambridge University Press, 2007. p. 471).

 

Que tal, então, assistir cinco minutos deste grande filme? Selecionamos uma parte, com dublagem francesa e legenda em português, de uma das aventuras de Odisseu: a sua estadia junto à Circe,  relatada por Odisseu à Rainha dos Feaces, Arete. Note como o diretor e o roteirista escolhem desenvolver certos aspectos da personalidade de Odisseu já presentes em Homero. Odisseu, claro, deseja retornar para a sua Ítaca, caso contrário não existiria a Odisseia. Mas não vemos, nesta cena, um Odisseu demasiadamente relutante em voltar para casa, como se não pudesse abrir mão das suas experiências para regressar à Ítaca? Não temos aqui um líder um tanto débil e inseguro, diferente do autoconfiante Odisseu apresentado em 1954 por Mario Camerini?


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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