“Dexileos, filho de Lisânias, de Toricos. Ele nasceu quando Tisandro foi arconte (414-3 a.C.) e morreu quando Euboulides foi arconte (394-3). Ele foi um dos cinco cavaleiros que morreram em Corinto”.

Essa inscrição faz parte do monumento funerário de Dexileos. O tema da guerra e da cavalaria está presente no próprio monumento, como se vê em uma das fotos que acompanha esta postagem. A história de Dexileos oferece um pouco do clima funerário (e artístico) dos cemitérios gregos. Um dos cemitérios mais conhecidos é o Kerameikos na cidade de Atenas.

Diferentemente do nosso entendimento contemporâneo de cemitério, como um espaço privado, solene e dedicado exclusivamente aos mortos, o Kerameikos abrigava edifícios públicos, como o Pompeion, usado, entre outras coisas, como um ponto de apoio para a procissão religiosa das Panateneias (o nome do edifício, Pompeion, liga-se, segundo o arqueólogo John Camp, justamente à palavra grega pompe “procissão”). Nesse sentido, o termo “cemitério” não se adequa senão imperfeitamente à realidade antiga que estamos comentando.

Uma outra diferença entre o Kerameikos e nossa concepção moderna de cemitério reside no fato de que, em lugar de ser um espaço mais ou menos isolado da cidade, este cemitério estava situado numa área de destaque de Atenas, por onde caminhavam muitos indivíduos (ainda que a necrópole, no período clássico, ficasse fora da muralha da cidade construída por Temístocles). Na imagem que acompanha esta postagem, é possível ver a chamada Rua das Tumbas, que alberga monumentos funerários, por exemplo, dos séculos V e IV a.C, inclusive o do nosso cavaleiro Dexileos. Dentro do que se chama hoje de Kerameikos, esta rua, em um dado momento, fica paralela à via sagrada, a via de aproximadamente 21 kms que ligava Atenas à Elêusis, um dos locais de cultos mais importantes de toda Grécia. Esta Rua das Tumbas cruza, ainda, a rua do Pireu, intensivamente utilizada por conectar a cidade de Atenas e seu porto, o Pireu.

Assim, os monumentos funerários eram feitos para serem vistos e, mesmo, integrarem-se na paisagem da própria cidade. Se o monumento de Dexileos pode representar uma demonstração sumptuosa de uma família de elite, o mesmo não pode ser dito da Demosion Sema, isto é, a sepultura pública e coletiva na qual eram enterrados os atenienses mortos em combate pela cidade de Atenas. O próprio Dexileos foi sepultado nesta tumba pública, pois morreu em serviço de Atenas na Guerra de Corinto (395-387 a.C.), ainda que a sua família tenha erigido um monumento em sua homenagem na Rua das Tumbas. O caráter cívico da Demosion Sema foi registrado de maneira magistral por Tucídides, que narrou, em seu livro, a famosa oração fúnebre proclamada por Péricles no começo da Guerra do Peloponeso, em homenagem, justamente, aos soldados atenienses mortos em combate e sepultados nesta parte do Keraimekos. A implicação deste caráter público da necrópole antiga pode ser lida, para quem quiser saber mais, no excelente artigo de Marta Mega de Andrade, intitulado “Diálogos da vida comum: os espaços funerários e a Cidade Antiga”. 

Categorias: Arqueologia Grega

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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