(Texto original em língua espanhola. Tradução por Félix Jácome.)

Parece mentira que, ainda hoje, tenhamos quase que pedir desculpas ao utilizar o cinema como um instrumento didático, ainda que o cine seja extremamente enriquecedor para o estudo das línguas clássicas. Há cada vez mais historiadores e filólogos que se debruçam sobre a recepção dos clássicos grecolatinos, investigando em profundidade os seus vestígios e enorme presença nas artes plásticas e visuais. Desse modo, fortalece-se os vínculos que nos unem com os nossos antepassados, o que demonstra a atualidade indiscutível dos clássicos.

Após muitos anos de estudo e experiência docente com varias gerações de jovens estudantes, podemos assegurar que o uso de filmes em sala de aula para abordar o tema do drama ateniense é extremamente proveitoso, além de muito motivador. O trabalho do professor, neste sentido, é ser uma espécie de guia que orienta o trabalho dos estudantes, abrindo novas perspectivas que ajudam a aprofundar o sentindo último da catarsis, tão importante nas tragédias gregas antigas.

Se nós nos aprofundarmos no repertório cinematográfico de que dispomos para este tema, comprovaremos que a lista de filmes que bebe dos textos trágicos grecolatinos é imensa, pois não só temos adaptações fiéis às obras originais, mas também uma grande variedade de filmes, de distintos géneros cinematográficos, inspirados mais ou menos diretamente nos textos clássicos. Assim, podemos lidar com obras-primas do cinema autoral, como certos filmes de Jules Dassin, Pier Paolo Pasolini, Ingmar Bergman, Lars von Trier, Theo Angelopoulos e, mais recentemente, Yorgos Lanthimos, cujos últimos longa-metragens (The lobster, The killing of a sacred deer) oferecem atualizações ousadas e muito sugestivas dos mitos gregos.

Um dos pioneiros na arte de filmar as tragédias gregas foi, sem dúvida, o diretor grego Yorgos Tsavelas que, em 1961, encorajado pelas recentes performances teatrais ao ar livre no teatro de Epidauro, propôs reescrever a Antígona de Sófocles. Quem angariou mais fama, contudo, foi o seu amigo, Michael Cacoyannis, que, no ano seguinte, surpreendeu o mundo inteiro com sua magnífica adaptação de Electra de Eurípides. Após a aclamação recebida em vários festivais internacionais, especialmente Cannes, este diretor tornou possível, pela primeira vez na história do cinema, a indicação de um filme grego ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira. Encorajado pelo sucesso retumbante de crítica e bilheteria, Cacoyannis trouxe duas vezes mais à tela do cinema as tragédias de Eurípides. O dramaturgo Eugène Ionesco elogiou a brilhante adaptação de Ifigênia (1977) feita por Cacoyannis, que também foi indicada ao Oscar.

Cacoyannis, no entanto, não buscou o aplauso do público a todo custo ou o enriquecimento pessoal, mas acima de tudo denunciou, através dos seus filmes, os abusos de poder que ele próprio sofreu em sua própria carne, quando, por exemplo, viu a junta de coroneis instaurar uma férrea ditadura na Grécia ou quando atentava-se contra a população civil no desastre de Chipre, sua terra natal. Nesse sentido, As Troianas (1971) é talvez o seu trabalho mais pessoal porque o filmou precisamente em tempos de exílio. Sua mensagem, altamente anti-bélica, faz com que o filme seja de grande atualidade, revivendo, em nós, os versos imortais de Eurípides. Dessa maneira, o potencial didático de As Troianas converte este filme em um dos melhores que podemos empregar em nosso estudo sobre as tragédias gregas.


Alejandro Valverde García

Professor do Departamento de Clássicas do Instituto Santísima Trinidad, Baeza, Espanha. Autor de obras dedicadas à recepção da Tragédia Grega no Cinema. Colaborador dos jornais espanhois dedicados ao cine: Filmhistoria and Metakinema.

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