Quando um autor grego menciona os termos Hélade e Helenos, não temos aqui uma informação auto-evidente: Hélade inclui, para o autor que o cita, toda a Grécia, incluindo o sul da Itália e a costa da Ásia Menor? Helenos são todos os gregos ou apenas uma parte deles?

A questão é que a delimitação de um território e, mais problematicamente, de um povo ou etnia, é uma construção cultural e não um dado da natureza ou um desdobramento direto do fato de se viver num mesmo território. A Espanha de hoje, por exemplo, embora um território administrativo único, comporta algumas reinvidicações étnicas e identitárias que se percebem muitas vezes excludentes. O que é Espanha ou espanhois? 

Se, durante o período de formação das ciências sociais, no século XIX e na primeira metade do século XX, o conceito de identidade étnica era visto, a grosso modo, como um elemento estável, por vezes imutável, de um determinado grupo vivendo em dado território e partilhando dada língua, a emergência da experiência pós-colonial na África e na Ásia a partir da década de cinquenta tem enfatizado o caráter artificialmente construído dessas pretensas identidades fixas, acentuando um forte ceticismo sobre a possibilidade de isolar traços culturais que marcariam seguramente um certa etnia. O mundo pós-colonial e a presença do ex-colonizado em território da antiga metrópole têm, até certo ponto, confundido e misturado os traços culturais entre os grupos humanos. Como estabelecer as fronteiras étnicas, por exemplo, na região de Paris, onde há aproximadamente duzentos idiomas atualmente falados? 

Como já disseram certos historiadores, a disciplina da História é, entre outras coisas, aquilo que uma época tem interesse em relação a uma época passada. É compreensível, assim, que a proliferação de demandas étnicas que marca o mundo atual tenha seu efeito sobre as preocupações temáticas dos (as) estudiosos (as) da antiguidade. Nesse sentido, os estudos sobre identidade, ou antes “identidades”, têm sido frequentes na historiografia das últimas três décadas, ainda que, é bem verdade, ainda há muito o que se estudar sobre este dossiê.

Um autor antigo que tem sido revisitado a partir deste tipo de reflexão é Heródoto, que viveu aproximadamente entre os anos de 485 e 425 a.C. Se há alguma razão para chamá-lo de “o pai da História”, como famosamente fez o escritor latino Cícero, também há alguma razão em chamar Heródoto de “o pai da Etnografia”. Não é, por certo, fascinante, que as suas “Histórias” (ou mais corretamente “Investigações”) contenham, além da história do conflito entre Gregos e Persas, uma gama de discussões e ponderamentos sobre vários povos, entre eles os Egípcios, os Citas, os Trácios, os Fenícios, além dos próprios Persas? É com boa dose de verdade que um recente livro sobre Heródoto intitula-se “Le Kaléidoscope hérodotéen” (escrito por Typhaine Haziza pela editora Les Belles Lettres). Este caleidoscópio de Heródoto, com suas imagens paralelas e variadas, mostra muitas facetas do Eu e do Outro, do Passado e do Presente, sem nunca estabilizá-las em dicotomias binárias e completamente excludentes.

Embora a crítica literária que confere muita ênfase à biografia do autor do texto está claramente fora de moda, é muito difícil não ver uma forte sintonia entre a biografia do chamado pai da História e as suas Histórias. Nascido em Halicarnasso (atual Turquia), cidade grega mas que estava na altura sob domínio Persa, ele teve que migrar ainda jovem, ao que parece por ter participado de uma revolta contra o tirano da sua cidade natal. Além de várias outras regiões, em algum momento (não se sabe ao certo qual) entre os anos de 449 e 430 esteve no Egito. Viveu na cidade de Atenas, na qual provavelmente finalizou seu livro. 

Heródoto participou, ainda, de um projeto de “colonização” promovido por Péricles. Tratou-se da fundação, na região ocidental do que se considerava mundo grego, da cidade de Turio. Nesse momento a imbricação entre vida, obra e identidade fica curiosa. Como é bem conhecido, o nosso texto das Histórias de Heródoto começa assim: “Esta é a exposição das investigações de Heródoto de Halicarnasso”. No entanto, Aristóteles, no seu livro Retórica (1409 a), ao dar exemplos de um dispositivo retórico baseado em expressões contínuas, cita a primeira frase da obra de Heródoto: “Este é o relato das investigações de Heródoto de Turio”. Quase poderíamos classificar o genitivo desta frase (thouriou) como genitivo de identidade cívica ou étnica! Por ter participado da expedição de fundação da cidade, Heródoto ganhou a cidadania de Turio e, ao julgarmos pelo texto que Aristóteles conheceu, Heródoto apresentava-se como pertencente a Turio antes que Halicarnasso, a ponto de começar sua obra destacando a sua voz como vinda de Turio.

O nosso texto de Heródoto segue a tradição manuscrita que informa Heródoto de Halicarnasso, mas, como Aristóteles testemunha, os antigos conheciam também uma outra versão da primeira frase do texto. Assim, a ambiguidade e complexidade das identidades na obra do “pai da etnografia” começam já na primeira frase da obra, incidindo sobre a construção da identidade pessoal e cívica da voz autoral do famoso historiador / etnógrafo.

Categorias: Heródoto

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

1 comentário

Jordano · 23 de abril de 2018 às 10:38

Incrível como alguns acadêmicos fazem um esforço descomunal quando o assunto é descontruir qualquer ideia de identidade quando essa é europeia

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