[Texto com pouco spoiler, nada que as sinopses do filme já não informam..]

Quem vive no meio de tantas calamidades, como eu, como não há-de considerar a morte um benefício? E assim, é dor que nada vale tocar-me este destino. Se eu sofresse que o cadáver do filho morto da minha mãe ficasse insepulto, doer-me-ia. Isto [a morte], porém, não me causa dor“.

Esses são os versos 461-466 de Antígona de Sófocles na tradução da ilustre Maria Helena de Rocha Pereira. Quem os enuncia é precisamente a heroína do drama, Antígona, que conta, em primeira pessoa, a perda de sentido em viver diante da impossibilidade de enterrar propriamente o seu irmão, Polinices. Ora, aos olhos de Creonte, o governante de Tebas no momento da ação dramática, Polinices não passa de um traidor, uma vez que mobilizou uma armada vinda de Argos contra sua própria cidade, Tebas. Antígona, no entanto, é indiferente a estas práticas da guerra, ela quer respeitar o dever religioso e familiar de prestar honras fúnebres ao seu irmão. 

Este conflito entre a razão familiar e religiosa de Antígona e a razão de Estado de Creonte foi recentemente reatualizado no filme húngaro “O filho de Saul” (Saul fia),  vencedor do Oscar de melhor filme em língua estrangeira em 2016. Este filme propõe,  pode-se audaciosamente afirmar, um enfoque sofocliano ao delicado tema do Holocausto. Como o próprio roteirista e diretor do filme, Lásló Nemes, declarou em uma entrevista, ele pretendeu explorar uma estética cinematográfica que privilegiasse a experiência única, parcial e limitada do indivíduo dentro do horror de um campo de concentração nazi. Por esta razão, a câmera foca quase sempre em primeiro (e primeiríssimo) plano sobre o rosto da personagem central do filme, Saul Ausländer, ao passo que desfoca, quase sempre, todo o fundo da imagem, na qual vemos, de maneira difusa, o funcionamento cotidiano do campo de concentração, especialmente do Sonderkommando, um grupo de prisioneiros selecionados para “ajudar” os nazistas com o extermínio de judeus nas câmaras de gás.

Após dez minutos de muitos sons confusos e pouca nitidez que podem deixar o espectador atordoado, Saul percebe que uma criança consegue sobreviver ao gás (brevemente porque um médico nazi a sufoca). Ele pensa que essa criança pode ser seu filho e decide que lhe dará um enterramento apropriado, o que inclui encontrar um rabino no campo de concentração que possa fornecer ao morto a devida prece judaica.

Conceder honras fúnebres ao seu suposto filho passa ser a obsessão de Saul, como foi a de Antígona na peça de Sófocles ao querer enterrar Polinices. Saul não tem um governante (ou mesmo tirano) para lutar contra, mas uma máquina totalmente destituída de sentido humano que trata os corpos dos mortos como peças que devem ser abertas, dissecadas e queimadas. Como bem notou um recente artigo escrito por Efimia Karakantza (Dying becomes her. Posthumanism in Sophocles’ Antigone  in the light of László Nemes’ Son of Saul, 2017), a obstinação de Saul e de Antígona com o morto e com a morte tem o efeito de tornar estas figuras distantes e mesmo indiferentes à vida. Na peça do dramaturgo antigo, Antígona parece conformada que sua atitude de desafio ao édito de Creonte que proibia o enterro de Polinices a levará a morte, como mostram os versos que abrem este texto. No filme, Saul parece desinteressado pelo plano de fuga que seus colegas prisioneiros elaboram para fugir do campo de concentração: a morte para ele é mais chamativa, como se, de algum modo, a experiência da morte do outro fosse já a morte de si próprio.  

No referido texto de Karakantza, a autora comenta que, tanto relativamente a Antígona como a Saul, já perto do fim da peça e do filme, há uma espécie de renascimento do desejo de viver, no instante mesmo em que a morte assombrava de maneira mais decisiva. É uma leitura que não é óbvia nem será unânime, mas vale a pena pensar sobre. Mais detalhes sobre este quesito não me é permitido: senão pecarei por excesso de spoilers

Quem sabe se sentirmos, de maneira tão direta e pessoal, a obsessão de um prisioneiro de guerra em render honras fúnebres a um (aparente) familiar não entenderemos melhor o que a audiência da peça de Sófocles poderia ter sentido diante do drama de Antígona encenado aproximadamente em 442 a.C. ?


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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