Ler sobre Mitologia grega (e mitologias de outros povos) pode ser uma experiência frustrante. Muitos nomes de deuses, heróis e heroínas para aprender, mil e uma aventuras que se entrelaçam, versões diferentes do mesmo episódio mítico. Basta olhar para esta imagem, que simplifica (sim, simplifica..) as relações de parentesco dos descendentes de Éolo, que nosso cérebro já cansa deste aparente labirinto.

A construção deste tipo de árvore genealógica é já, em si, uma tentativa de por ordem à confusão. Este é um método eficaz de “fichamento” das relações entre deuses (as) e humanos, que nos ajuda a organizar as informações e, assim, encontrar um fio de Ariadne neste labirinto da mitologia grega (Fio de Ariadne? Sim, um fio de lã dado por Ariadne a Teseu, para que ele não se perdesse no labirinto do Minotauro).

É possível, contudo, ir mais longe na identificação de laços entre estas histórias ao isolar um certo padrão de evento ou comportamento que atravessa várias dessas histórias. Vejamos o caso de NESTOR, rei da famosa Pilos, como nos relata Homero (quem acha o nome de Nestor neste diagrama..?).

O velho sábio é caracterizado em Homero como alguém que teve uma vida excepcionalmente longa. Logo no primeiro canto da Ilíada, o poeta nos conta que Nestor já viu perecer duas gerações de homens. Já no canto 11, Nestor, ele próprio, enumera seus feitos bélicos da juventude e, ao fazer isto, menciona, de passagem, que foi o único sobrevivente de um ataque que Héracles fez a Pilos, sua cidade.

Quando estudamos um pouco a ascendência de Nestor, observamos que não apenas ele é um sobrevivente, mas na sua família o motivo da destruição e de um único sobrevivente é recorrente. A avó de Nestor, Tiro (ver o diagrama), foi a única, entre seus irmãos, que sobreviveu ao ataque levado a cabo por Zeus contra o pai de Tiro, Salmoneu (bisavô, portanto, de Nestor..). Este Salmoneu, convenhamos, pediu para ser castigado: teve a brilhante ideia de se apresentar ao seu povo como se fora o próprio Zeus, exigindo cultos a si próprio. Como acontece de hábito na mitologia grega, a insolência é o preâmbulo do castigo divino.

Assim, Nestor não apenas sobreviveu ao passar das gerações, mas sobreviveu ao padrão de ataques e mortes que caracterizam sua família.

É importante estudar, portanto, não apenas a figura mitológica específica, mas também a sua família. Ao fazer isso, percebemos que, como na história de Ariadne e Teseu, a própria narrativa mítica fornece alguns pontos firmes para nos guiar neste labirinto. O desafio, claro, é encontrá-los.

Fonte da imagem: Eire, A.L.; Velasco López, M. H. La mitología griega: lenguage de dioses y hombres. Madrid: Arco Libros, 2012.
Categorias: Mitologia Grega

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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