Excelente pergunta. Tiro foi uma cidade fenícia localizada no sul do atual Líbano e pode ser considerada como um dos pontos de encontro entre as culturas do mediterrâneo. Tratava-se de um símbolo do poder comercial e militar que os Fenícios exerceram no mar mediterrâneo, sendo Cartago sua colônia mais próspera. Por ser uma ilha perto do continente, exércitos inimigos tinham enormes dificuldades em conduzir um cerco, pois a cidade podia ser abastecida pelo mar. Isto mudou, assim como o mundo daquela época, com a chegada do jovem rei Alexandre da Macedônia que invadiu a cidade de Tiro construindo um molhe, que ligava a ilha ao continente, mudando assim a geografia da cidade permanentemente. 

Depois da divisão do império entre seus quatro generais, Tiro foi dominada ora pelos egípcios da casa de Ptolomeu ora pelos Selêucidas. Em seguida, passou à administração romana. A cidade moderna de Sur, no Líbano, cresceu em cima da antiga Tiro, mas ainda está em constante diálogo com o seu passado. Contando com grandes parques arqueológicos, a cidade possui diversos mosaicos, edifícios, arcos e até mesmo uma arquibancada relativamente bem conservada de um dos maiores hipódromos romanos que sobreviveram até o presente. 

É de Tiro que, segundo a lenda, a princesa fenícia Europa foi raptada por Zeus em forma de touro. O historiador Heródoto, na tentativa de historicizar a mitologia, contextualiza esse rapto dentro das desavenças entre Gregos e Bárbaros, relatando que os Gregos raptaram Europa para vingarem-se do rapto de Io cometido anteriormente pelos Fenícios. Outra figura mitológica que liga a Grécia a Tiro é Cadmo, fundador mitológico de Tebas e irmão de Europa. Heródoto relata que o príncipe Fenício teria introduzido a arte da escrita entre os Gregos.

Pessoalmente, tenho uma ligação especial com esta cidade, pois o filósofo que me acompanhou durante o doutorado, o neoplatônico Porfírio, nasceu em Tiro. Porfírio escreveu em língua grega, mas foi um tradutor de culturas, sempre muito interessado nos povos que circundavam e integravam o império romano, como os Egípcios, Persas, Indianos e os sírios, como ele próprio. Em uma visita ao Líbano não pude deixar de visitar os restos desta cidade antiga para respirar o ar do mediterrâneo que Porfírio também respirara. A tensão da situação política atual, com o Hezbollah controlando boa parte do sul do Líbano, deixou suas marcas na tarefa de conservar os restos arqueológicos da antiga cidade. Pela ausência de turistas e pelos mosaicos mal cuidados, se nota que o Oriente Médio tem preocupações atuais mais urgentes que a busca e a restauração do passado. 

Olhar para Tiro e tentar compreender seus processos históricos é uma das várias maneiras de tentar perceber como as histórias dos povos do mediterrâneo estão entrelaçadas. É um convite a deixarmos de lado noções modernas de estados nacionais para tentar compreender em que medida os contatos e a trocas compuseram um sistema na antiguidade que tinha o mediterrâneo como intermediário. Nos resta ainda tentar decifrar que tiro foi esse.

Categorias: Fenícia

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