A gramática de qualquer língua nem sempre é lógica, e de todas as categorias gramaticais a mais ilógica e inesperada é a do gênero. Afinal, por que “mesa” é feminino se ela não tem nenhuma característica de ser feminino? Por que em uma língua certa coisa é masculino (o mar, em português) e noutra língua a mesma coisa é feminina (la mer, em francês)? E por que o mar tem de ser ou masculino ou feminino sendo que essa grande reunião de água salgada não tem atributos nem de ser masculino nem de feminino?

Uma primeira coisa: gênero gramatical está muito longe de gênero natural. Segundo ponto: essa atual divisão de gênero gramatical das línguas vivas e modernas entre masculino e feminino está muito longe também de como era a divisão de gênero nas línguas que precederam e originaram as nossas. (Vamos ficar nas nossas línguas por aqui mesmo, pois há culturas distantes, na África por exemplo, nas quais as línguas têm até 20 gêneros e este fato escapa por completo ao meu escopo aqui).

Nas línguas que precederam e originaram as nossas línguas modernas ocidentais, grego e latim, há três gêneros: masculino, que em tese abrange os seres do sexo masculino; feminino, que em tese enfeixa os seres de sexo feminino e o neutro, que engloba os seres inanimados, coisas. O problema é que a coisa não era tão bonitinha e previsível assim, pois há muitos substantivos inanimados que são ou masculinos ou femininos e não neutros como seria de esperar.

Precisamos recuar ainda mais no tempo, até chegar ao indo-europeu, que é uma língua ágrafa, uma língua suposta, hipotética, falada na pré-história, muito antes da escrita, por povos distribuídos por uma extensíssima faixa de terra que vai de Portugal à Índia. Essa língua teria dado origem a muitas famílias de línguas, muitas mesmo, e duas dessas famílias são a Helênica, onde se situa o grego, e a Itálica, onde está o latim. No indo-europeu a divisão de gênero absolutamente nada tinha a ver com sexo masculino e feminino: ele tinha uma visão animística do mundo e distinguia dois gêneros gramaticais, a saber, o animado, que engloba os seres vivos (independentemente do sexo) e o inanimado, que agrupa as coisas sem vida.

O que aconteceu em algumas línguas derivadas do indo-europeu, como grego e latim, é que o gênero animado se cindiu em masculino/feminino, e o gênero inanimado se tornou o neutro (do latim NEUTER, nem um e nem outro). O gênero feminino é portanto uma inovação de algumas línguas indo-europeias como grego e latim. Prova disso é que muitos adjetivos gregos e latinos têm exatamente a mesma forma para masculino e feminino e outra forma para o neutro, e muitos substantivos, no caso do latim, como PATER (pai) e MATER (mãe) não têm nenhum indicador morfológico de gênero, num vestígio significativo de um antigo estado de coisas: vestígios de que os gêneros masculino e feminino antes eram um gênero só, o animado.

Para explicar a existência de coisas inanimadas que pertencem aos gêneros masculino e feminino em vez de neutro, entra um caráter subjetivo dos antigos: se a coisa fosse entendida como possuidora de algum tipo de vida, não seria neutro, apesar de inanimado. Por isso os nomes de árvores em latim são femininos apesar de árvore ser algo inanimado, pois árvore produz vida. Os rios, astros, montes, ventos, tudo isso inanimado, eram divinizados, pois os antigos atribuíam-lhes forças sobre-humanas, portanto essas coisas eram tomadas como animadas abstratamente e encaixadas como masculino/feminino. Os órgãos ativos do corpo, justamente por terem atividade, como pé e mão, são masculinos/femininos, também encarados como abstratamente animados, ao passo que órgãos internos e imóveis são todos do gênero neutro.

O gênero neutro é em grego e latim, como o foi também no indo-europeu, bastante próximo morfologicamente do gênero masculino: ambos têm a mesma vogal temática “o” e se distinguem apenas pela desinência (letrinha que termina a palavra). Enquanto o neutro permaneceu em grego (o grego moderno possui esta categoria de gênero), nas línguas derivadas do latim o neutro tendeu a desaparecer gradualmente e seus substantivos foram reagrupados ou no masculino, mais comumente, e um ou outro foi pro feminino.

Mesmo com o desaparecimento do gênero neutro em boa parte das línguas modernas, em especial nas que têm por mãe o latim, por isso mesmo chamadas poeticamente as flores do Lácio num lindo soneto de Olavo Bilac, ainda se mantém uma ideia de neutralização do masculino ao se dizer “amigos”, “senhores”, “brasileiros”, etc, pois o masculino e o neutro são morfologicamente muito próximos nas línguas antigas. Para se entender essa neutralização do masculino é mister entender-se algo sobre gramática histórica. Por isso não fazem sentido palavras como “amigues”, “amigxs” e por aí vai, pois isso denota falta de conhecimento histórico-linguístico.

Então em resumo o caminho foi este:

1 – Animado/inanimado (visão animística do mundo, em fase anterior à escrita)

2 – Masculino, feminino e neutro (com a cisão do gênero animado nas línguas derivadas imediatamente do indo-europeu)

3 – Masculino e feminino (em boa parte das línguas modernas, sugerindo uma ideia de sexo que nem sempre corresponde à realidade).

 Estas noções não resolvem por completo mas ajudam a entender a confusão que é essa categoria gramatical do gênero e por que ela é arbitrária.

Categorias: LatimLíngua Grega

Gil Fenerich

Gilliard Augusto Fenerich é bacharel e licenciado em Letras pela Unesp-Araraquara, formando no curso de música da USP-Ribeirão Preto e professor de música em Monte Alto-SP.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: