Esta semana uma notícia tem sido bastante comentada e partilhada nas redes sociais: teriam sido encontrados, em uma tabuinha de argila descoberta próxima ao templo de Zeus em Olímpia, os versos mais antigos da Odisseia. O The Guardian e a BBC news, por exemplo, afirmam que estamos diante dos extratos mais antigos já encontrados da Odisseia.  

A notícia, da maneira como está sendo divulgada, leva, contudo, a confusões. Quando lemos a reportagem, damos-nos conta que a tabuinha contendo os versos está sendo datada do século terceiro depois de Cristo. De início, um material do período romano não pode conter os versos mais antigos da Odisseia. Além dos próprios autores antigos que citavam versos homéricos, como Platão, nós temos um acervo, relativamente rico, de papiros contendo versos tanto da Ilíada como da Odisseia, que situa-se, essencialmente, entre os séculos III a.C. e III d.C., bem anterior, portanto, a este recente achado.

Segundo a afirmação do Ministro da Cultura da Grécia, tal qual está sendo veiculada nos meios de comunicação, a novidade do artefato encontrado residiria no fato de que seria a evidência mais antiga de versos da Odisseia encontrada na Grécia. Se lembrarmos que os papiros foram, quase todos, encontrados no Egito, então poderemos, nesse âmbito, entender a relevância desta descoberta arqueológica, que tem a ver mais com a novidade da sua proveniência do que com a falsa afirmação de que seriam os extratos cronologicamente mais antigos da Odisseia.

Assim, a novidade desta descoberta incide no suporte, tabuinha de argila, e na proveniência, as proximidades de um importante templo na Grécia. Os dois elementos juntos, tabuinha e templo na Grécia, transmitem a importância (e o limite) desta descoberta.

De toda maneira, a repercussão desta notícia possui o mérito de nos recordar que estas formidáveis obras da literatura antiga possuem, também, uma interessante e curiosa história de transmissão dos seus textos, que vale muito a pena conhecer.

Papiro do século I a.C. com os versos 43–45 e 75–92 do canto 9 da Odisseia
Categorias: Grécia AntigaHomero

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

3 comentários

Félix Jácome · 15 de julho de 2018 às 10:32

Um interessante argumento que explora a relevância de a tabuinha ter sido encontrada em um importante templo grego pode ser lido neste post em inglês: https://philologicalcrocodile.wordpress.com/2018/07/11/oldest-odyssey-fragment-no-but-what-is-it/

Paulo · 14 de julho de 2018 às 19:49

Quer dizer então, resumidamente, que o achado em questão é o mais antigo encontrado na Grécia mas há outros mais antigos, mas estes foram encontrados no território egípcio?

    Félix Jácome · 15 de julho de 2018 às 10:04

    Paulo, é o mais antigo registro da Odisseia encontrado na Grécia levando em considerado o tipo de material, tabuinha de argila. Existem outros suportes que contêm versos da Odisseia que são anteriores, mesmo na própria Grécia. O verso 39 do canto nono da Odisseia, por exemplo, foi encontrado em um vaso grego do século V a.C.(ver a referência aqui .
    O problema com a maneira pela qual a notícia está sendo divulgada é que ela não deixa nada disso claro e trata o achado como se fosse o registro mais antigo já encontrado da Odisseia. A Odisseia foi composta no século VIII ou VII a.C., primeiro oralmente em seguida por escrito, e não faz o menor sentido conceber que uma tabuinha do período romano seja a evidência mais antiga de versos desta épica.
    O papiro foi o suporte material mais utilizado no mundo grego para registrar as obras literárias e há vários papiros, como comentei, que são mais antigos do que a tabuinha e que contêm numerosos versos tanto da Odisseia.
    Assim, a novidade da descoberta incide no suporte, tabuinha de argila, e na proveniência, Grécia. Os dois elementos juntos, tabuinha e Grécia, transmitem a importância (e o limite) desta descoberta.

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