DIONISO:

É que esta cidade tem de aprender até ao fim, ainda que o não queira, que lhe falta ser iniciada nos meus rituais báquicos.

                                     Bacantes 39-40

 

Está no nosso canal do Youtube, por tempoo limitado, a gravação legendada da Conferência online ministrada, em 26 de julho, pelo Professor Emérito da Universidade de Exeter, Richard Seaford. A atividade está sendo organizada pelo Instituto Mundo Antigo em parceria com a PUC-GO. A Conferência versa sobre As Bacantes de Eurípides. Esta é uma peça intrigante e, como ele argumentará, mal compreendida.

A trama da peça é simples: Dioniso, disfarçado de humano, e um Coro de Bacantes estrangeiras, chegam à cidade grega de Tebas. O deus demanda que o seu culto seja instalado, porém o Rei da cidade, Penteu, recusa e acusa Dioniso, que estava sob forma humana, de querer promover novos deuses na cidade. Após as mulheres de Tebas marcharem para as montanhas para praticarem os rituais báquicos, Penteu, a partir dos efeitos de Dioniso, decide se vestir de mulher e espionar as mulheres. A mãe de Penteu, Agave, que dançava nas montanhas, em transe, confunde o próprio filho com um animal e o abate. Ainda em êxtase, ela traz a cabeça do que pensa ser um animal para a cidade. Dioniso, então, a faz recuperar a razão e, Agave, em desespero, lamenta a morte do filho. Dioniso termina a peça triunfante e anuncia o futuro das personagens trágicas restantes.

O que há de desconcertante nesta peça é a imagem religiosa que é apresentada, que choca a sensibilidade moderna marcada pelo cristianismo. Penteu resiste à implementação dos rituais de Dioniso e é categoricamente castigado pelo deus, a ponto de ter a cabeça apresentada pela própria mãe para todos como se fosse uma cabeça de animal, tudo isto diante da aparente indiferença de Dioniso. Não são poucos os (as) leitores (as) da peça que veem de maneira negativa este deus vingativo e distante da retórica da misericórdia cristã. Penteu, nesta visão, surge como um rei de má sorte que pena para entender o que está acontecendo em Tebas e é punido de maneira cruel.

Esta interpretação, argumenta Richard Seaford, traz uma grave incompreensão da visão de mundo antiga e negligencia as várias passagens na peça que enaltecem Dioniso, seus rituais e o culto de mistério associado a ele. Dentro do arranjo religioso propiciado pela própria peça, Penteu precisa ser corrigido por Dioniso, pois ele é um theomachos, isto é, alguém que luta contra o(s) deus(es). O deus do teatro precisa, portanto, superar a resistência do rei para implantar seu culto. E qual o significado do culto de Dioniso? O que a cidade de Tebas ganhará acolhendo Dioniso? A afirmação de Dioniso no final da peça é, também, Seaford argumentará, a afirmação dos significados políticos e religiosos do deus na cultura grega. Estes significados não se igualam a um triunfo da irracionalidade e da selvageria, como suporia a visão sobre Dioniso vinda de Nietzsche a partir do dualismo com Apolo. Dioniso tem outra valência: é o deus que confunde as hierarquias, abraça a coletividade, desestabiliza as dicotomias e afirma a ordem cívica ao combater o rei-tirano que ameaça o seu culto e, por conseguinte, a comunidade.

As Bacantes é uma tragédia que lida com dicotomias poderosas, como humano e divino, sabedoria e ignorância, homem e mulher, cidade e campo, devotos e céticos, razão e êxtase, ordem e desordem, hierarquias e igualitarismo. Em todos estes conflitos atua Dioniso, o deus que justamente não tolera estas fronteiras rígidas. O que acontecerá? 

Bacantes atacam o rei Penteu

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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