Qual relação existe entre interdisplinaridade, eurocentrismo e os estudos do mundo antigo?

Um caminho para se responder a esta pergunta é perceber que uma certa prática interdisciplinar existe nos Estudos acerca da Antiguidade desde a formação dos Departamento de Estudos Clássicos e História Antiga nas Universidades europeias do século XIX. A área de classics, com efeito, foi pensada desde o início como um projeto cujo objetivo era abordar de maneira heurística as culturas grega e romanas, abrigando, em seus Departamentos, especialistas de diferentes domínios ligados a este objeto de estudo, como estudiosos do direito antigo, religião ou filosofias antigas. O motor desta escolha pode ser concebido em duas partes: de um lado, a própria natureza das fontes requeria conhecimentos técnicos específicos que necessitavam conexões epistêmicas para serem inteligíveis, um corolário importante no século XIX dada a formação científica da pesquisa histórica. Os códigos legais romanos, por exemplo, exigiam do estudioso o conhecimento do direito, mas também um sólido conhecimento filológico da língua latina e dos contextos políticos e sociais na qual as leis romanas emergiram. O outro aspecto que conferiu ímpeto à interdisciplinaridade na formação da área das clássicas foi a escolha deliberada de valorizar o conhecimento científico acerca da História de Grécia e Roma antigas e de seus legados para a cultura europeia e ocidental. Neste ponto, é significativo que a formação da área no século XIX coincida com o desenvolvimento de uma leitura linear e progressiva da História, na qual a Europa contemporânea seria o apogeu, assim como com a formulação de teorias racistas que hierarquizavam a capacidade cognitiva dos grupos humanos, pretendo determinar quais povos estariam aptos ou inaptos ao desenvolvimento cultural, artístico e intelectual. No âmbito do pensamento racista do XIX, o interesse dos centros formais de pesquisa acadêmica focou particularmente em Grécia e Roma, em detrimento de povos da Antiguidade africanos e orientais, que seriam considerados culturas inferiores e pouco significativas para o entendimento da sociedade europeia cristã.

Assim, o contexto de nascimento dos Estudos da Antiguidade nos legou, de um lado, o interesse no estudo científico do mundo antigo com o correlato desenvolvimento de metodologias de análises dos diferentes tipos de fontes primárias e, de outro lado, como argumentou de maneira persuasiva Martin Bernal no volume I do livro Black Athena, imprimiu nestes estudos uma forte parcialidade em favor do mundo heleno e latino, construindo uma narrativa histórica na qual todas as conquistas ditas civilizacionais destes povos teriam sido fruto do seu próprio esforço, mérito e gênio, sem qualquer grande contribuição dos povos asiáticos ou africanos, concebidos como passivos (ou mesmo estáticos) e pouco inovadores. Para Bernal, este passado de cunho colonial e racista estaria muito presente mesmo no século XXI. Dan-el Padilla Peralta, especialista em História romana, tem recentemente chamado a atenção, tanto na Universidade como na Imprensa, para a resiliência desta narrativa eurocêntrica e mesmo racista. Nesse sentido, o desafio para a nossa geração de estudiosos do mundo antigo, no que concerne à interdisciplinaridade, é duplo. De um lado, precisamos evitar que a pesquisa, ensino e extensão sejam limitados por recortes departamentais e disciplinares que obstaculizam a compreensão crítica e heurística dos objetos estudados e dos saberes produzidos na academia e na escola. Por outro lado, faz-se mister a construção de uma abordagem interdisciplinar que supere o caráter eurocêntrico tão presente, como vimos, na formação dos Estudos sobre a Antiguidade.

O objetivo deste texto consiste em discutir abordagens recentes de construção de interdisciplinaridades não eurocêntricas na historiografia e no ensino escolar, a partir da promoção de um paradigma de história conectada ou global da Antiguidade (há diferenças entre estas abordagens que não podem ser detalhadas neste texto, para tal o leitor poderá consultar o texto de Fábio Morales e Uiran Gebara, mencionado logo abaixo.). Mais especificamente, veremos como este paradigma nos ajuda a evitar a reiteração de leituras eurocêntricas da Antiguidade, abrindo uma janela, de fato, para uma interdisciplinaridade que faça mais justiça às visões de mundo e às fontes antigas e esteja menos preocupada em construir grandes narrativas de justificação do domínio europeu sobre o mundo contemporâneo.

Noberto Guarinello, no livro História Antiga publicado pela editora Contexto em 2003, possui um termo muito acertado para o que se passa muitas vezes na historiografia sobre o mundo antigo: há uma “corrida de revezamento” no foco que os estudiosos dão às sociedades antigas. Nesta corrida, o interesse oscila entre diferentes povos antigos e períodos históricos, mas há sempre uma presunção que orienta este movimento de foco: as contribuições destes povos à história contemporânea europeia e ocidental. Assim, o interesse começa na região do crescente fértil com o surgimento das cidades e da escrita, depois migra para contemplarmos o “milagre” grego e a “invenção” da política, teatro, filosofia e, por fim, somos levados à Roma para aprendermos sobre o direito e sobre a vitória do cristianismo sobre as culturas pagãs. Todo o resto adquire relevância somente quando interseccionam com a dita História da Europa ou quando ilustram contraposições ou exotismos: assim, as monarquias asiáticas, como a Pérsia Aquemênida, são contrastadas com a descoberta da democracia e da liberdade pelos gregos (e, em menor medida, romanos), ao passo que a religião egípcia é vista pelas lentes do sensacional e do exótico, não guardando relação alguma com a cultura da fé pessoal típica do cristianismo.

Uma primeira maneira de sair desta corrida eurocêntrica é ler a Antiguidade sem utilizar as marcas geopolíticas do mundo contemporâneo. Embora desde o século XVIII a Europa tenha de fato se tornado importante no cenário internacional, isso nem sempre foi o caso do continente europeu na Antiguidade. Em um recente livro (The World from 1000 BCE to 300 CE), Stanley Burstein mostra que, no recorte cronológico que dá título ao livro, as sociedades “europeias” da Grécia e de Roma podem ser vistas como periféricas em relação a povos mais organizados e fortes militarmente, como os Persas Aquemênidas (séculos VI-IV a.C.). Roma, acrescentaríamos, é uma cidade-estado com influência praticamente limitada ao centro península Itálica até o século IV a.C. Dessa maneira, o que nos parece importante hoje, como o papel da Europa na economia e geopolítica, não precisa corresponder às hierarquias de relevâncias do passado. O discurso eurocêntrico tende a eternizar a importância da Europa, reduzindo a História da humanidade à história da formação da Europa.

A História Antiga eurocêntrica normalmente constrói as suas narrativas baseadas nas fronteiras atuais dos Estados: assim, nós temos uma infinidade de livros e cursos intitulados “História da Grécia”, “História de Roma”, “História do Egito”. Este internalismo metodológico, como chamam Uiran Gebara e Fábio Morales no artigo História Antiga e História Global: afluentes e confluências, publicado em 2020 na Revista Brasileira de História, cria unidades de análise largamente artificiais e anacrônicas, dificultando o entendimento de uma realidade antiga que atuava com outras fronteiras. Sobretudo, a obsessão com o recorte nacional negligencia a dinâmica de conexão e contato entre os povos antigos que, obviamente, não respeitavam o que nós modernos entendemos por fronteiras.

Quando ampliamos a escala de análise, das fronteiras nacionais para o espaço do Mediterrâneo, por exemplo, o nosso entendimento dos fenômenos antigos pode mudar drasticamente. Pensemos, por exemplo, nos vasos gregos que vemos em vários museus europeus e que aparecem juntos nos manuais de História da Grécia ou de História da Arte grega. Se olharmos para além do que hoje é Grécia, veremos que boa parte destes vasos foram encontrados em escavações arqueológicas em diversas partes do mediterrâneo, sendo a península Itálica um local de relevo neste ponto. Outro exemplo: ao estudarmos as primeiras organizações urbanas pós-Idade do Ferro reveladas pela arqueologia em Pompeia e datadas dos séculos VII e VI a.C., como poderemos definir uma cultura homogênea ou “nacional” se o que temos é, desde o início, uma mistura de cultura grega (por exemplo, os deuses gregos venerados, como Apolo, e as inscrições gregas encontradas no tempo de Apolo) com cultura etrusca, visível, por exemplo, na arquitetura dos templos mais antigos da cidade. Como interpretar essa interpenetração de povos em um espaço que entendemos, a princípio, por “Itália”? A presença samnita a partir do século V a.C. e romana (a partir sobretudo do século III a.C.) em Pompeia complexifica ainda mais as fronteiras étnicas ou nacionais. Realidades como esta, que são antes norma do que exceção em várias regiões do Mediterrâneo antigo, só podem ser realmente compreendidas a partir de uma abordagem que esteja atenta às conexões entre os povos no marco de um espaço muito mais amplo do que interdisciplinaridade tradicional e nacionalista permite.

Assim, a “mediterranização” da História Antiga, isto é, a utilização da bacia mediterrânica e suas terras circundantes como espaço privilegiado de análise dos contatos e trocas entre os povos antigos, tem sido uma abordagem que tem relevado potencial para superar padrões eurocêntricos. Essa linha de pesquisa recebeu um forte impulso a partir de 2000 com a publicação do livro The Corrupting Sea: a Study of Mediterranean History, de Peregrine Horden e Nicholas Purcell. Este livro, marcadamente interdisciplinar, promove a relevância da geografia e da ecologia para o desenvolvimento na longa duração das sociedades mediterrânicas. O caráter fragmentado, por exemplo, de determinados ecossistemas mediterrânicos, como as ilhas gregas, favoreceu a necessidade do contato cultural e das trocas comerciais, argumentam estes autores. Esse tipo de abordagem tem o potencial, portanto, de conferir importância equivalente aos diversos povos em interação, sem criar narrativas hierárquicas a partir das supostas contribuições destas culturas ao mundo europeu e ocidental.  Nesta lente, o Egito, a Pérsia e os povos do Levante perdem o caráter passivo e estático a eles atribuídos pela historiografia eurocêntrica. Os estudos recentes sobre a Pérsia Aquemênida, por exemplo, têm reavaliado um conjunto de estereótipos e preconceitos culturais advindos das fontes gregas, como Heródoto, e também dos estudiosos modernos que são demasiadamente reféns da narrativa do ocidente livre contra o oriente despótico. A tese das Guerras Pérsicas (490-479 a.C.) como um choque de civilizações totalmente antagônicas cai por terra quando apreciamos fontes primárias, como as evidências de trabalhadores gregos na construção de Pasárgada, nas quais sobressai o diálogo e interação entre gregos e persas.

A construção de um conhecimento histórico não eurocêntrico nos estudos da Antiguidade traz, também, novos desafios no que diz respeito à interdisciplinaridade. O diálogo da História com a Geografia é evidente pela reavaliação da noção de espaço como vimos acerca do Mediterrâneo. O conhecimento filológico é ainda mais importante, pois ao conectar povos distintos, também interligamos seus idiomas, o que é um desafio para a pesquisa e o ensino. Basta pensar nas diversas línguas antigas utilizadas pela administração do mundo persa Aquemênida ou no bilinguismo, grego e latim, da elite romana que produziu nossas fontes escritas. A ênfase na conexão entre indivíduos e povos no Mediterrâneo, implica o que as pessoas conectavam: além dos seus idiomas, suas experiências que chamaríamos religiosas, seus bens econômicos para trocas, suas técnicas arquitetônicas, estilos artísticos, etc. Sendo assim, centrar nosso interesse na interação requer um atitude interdisciplinar, que construa os objetos de pesquisa ou os temas de ensino interligando os contributos de várias disciplinas. Alex Degan e Claudia Bovo, no seu artigo de 2017 intitulado As temporalidades recuadas e sua contribuição para a aprendizagem histórica: o espaço como fonte para a História Antiga e Medieval, advogam, por exemplo, a relevância de se organizar o ensino de História Antiga por meio de “espaços sociais”, ou seja, o estudo de regiões a partir das interações entre fatores naturais e humanos, dentre estes últimos os aspectos mencionados acima, como idiomas e religiões.

Para concluir, é importante mencionar uma possível limitação de uma história global ou conectada do Mediterrâneo. Para além da dificuldade metodológica de lidar com fontes bastante heterogêneas, precisamos evitar generalizações que podem ser deveras simplistas. Por exemplo, “religiosidade mediterrânica”. Por mais que tenhamos interesse em abordar de maneira integrada o tema da religião na bacia mediterrânica, não existiu uma experiência religiosa uniforme dentre os diversos povos mediterrânicos em nenhum período histórico que queiramos delimitar. Essa é justamente a crítica feita por Greg Woolf em um texto intitulado “A Sea of Faith?”, que foi publicado em um número especial da Mediterranean Historical Review dedicado ao paradigma do Mediterrâneo nos estudos históricos. De fato, basta pensar no contraste entre a forte organização de sacerdotes e templos da religião egípcia com a religião baseada em ritos sem estrutura burocrática dessa magnitude nas religiões das cidades-estados gregas e romanas. Assim, ao abordarmos, de maneira interdisciplinar e global, temas da Antiguidade, como “espaço”, “democracia”, “religião”, a conexão não pode se converter em homogeneização forçada das diferenças culturais, sob pena do Mediterrâneo se transformar em mais um grande eixo de unificação anacrônica da Antiguidade, como são a ‘Europa’ e o ‘Ocidente’ para a historiografia influenciada pelo século XIX.


Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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