Depois do sucesso do Curso História da Civilização Grega, que se concluiu no último dia 21 com cinquenta participantes que nos seguiram durante sete sessões, apresentamos um tema que apareceu durante as aulas, mas foi impossível desenvolver lá.

Como o racismo está mais urgente do que nunca, vale a pena revisitar o trabalho de Martin Bernal, que faleceu exatamente em um 9 de junho, sete anos atrás.

Bernal publicou uma trilogia de livros, chamada Black Athena, entre 1987 e 2006. A tese deste inglês é que os historiadores do século XIX, imbuídos com espírito racista e imperialista, deliberadamente omitiram das suas narrativas sobre a origem da civilização grega a contribuição de povos afro-asiáticos, especialmente os egípcios e os fenícios. Este modelo “ariano” da História da Grécia, para Bernal, perdura até agora, pois é prático e cômodo politicamente para promover a crença na excepcionalidade do povo grego e no caráter puramente branco e europeu desta civilização, legitimando práticas imperialistas atuais ainda hoje. Um exemplo simples deste modelo “ariano” é a insistência, que veio tanto de estudiosos liberais como de marxistas, de que a Grécia (vista como branca e europeia) seria berço de tudo: política, literatura, filosofia, etc.

Bernal, então, analisa esta historiografia do século XIX no primeiro volume (1987), avança argumentos históricos em favor das conexões afro-asiáticas no segundo volume (1991), bem como, no terceiro volume (2006), mostra evidências linguísticas de que os idiomas destes povos não-europeus entraram significativamente na composição do grego antigo.

O trabalho de Bernal têm sido alvo de críticas de diversos setores da Academia (um vivo debate ocorreu nos anos noventa, enquanto nesta década se reduziu bastante). Classificar estas críticas usando teorias conspiratórias de que seriam todas oriundas do racismo da Academia que não aceita as ideias de Bernal não é pertinente nem será a linha seguida neste minicurso.

Bernal possui alguns problemas graves no modo como ele lê as fontes antigas e como constrói modelos historiográficos que podem ser mais idealizações do que um constructo mental válido para agrupar as explicações históricas.

Assim, este minicurso discutirá a obra de Bernal por duas razões principais:

1- Bernal lança questionamentos fundamentais para a escrita da História da Grécia antiga e nos provoca a refletir sobre se não estaremos criando uma imagem desta civilização que corrobora com crenças de superioridade europeia que marcam, ainda hoje, o racismo e a xenofobia no Velho Continente.

2- O debate em torno da trilogia de Bernal produz um rico e excepcional arsenal sobre como se dá a mudança de paradigma em História. Insistiremos neste ponto: como novos paradigmas, novos modelos explicativos ou novos conceitos emergem e alteram nossa percepção do passado, mesmo quando não surgem novas fontes históricas. Ao analisar este assunto, discutiremos a relação entre o (a) historiador (a) e as diversas categorias de fonte histórica existentes na História Antiga, e como, metodologicamente, podemos lê-las.

Por fim, como lembrava Eric Hobsbawm, toda e qualquer interpretação de conjunto do (a) historiador (a) sobre o passado cria uma imagem deste passado, que sempre tem reverberações políticas no tempo do (a) historiador (a). Desse modo, toda escrita da História do passado possui responsabilidade política e social com o presente.

Ainda, serão sugeridas algumas páginas do primeiro volume para leitura prévia. Há a edição original em inglês e uma tradução em espanhol.

Inscrições limitadas à capacidade da sala (100 pessoas):
https://forms.gle/w8Sf1wK1DYikXAkN6
 

Félix Jácome

Historiador. Doutor e Mestre em Estudos Clássicos - Mundo Antigo- na Universidade de Coimbra. Apaixonado pelas culturas antigas e sua importância para o nosso mundo.

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